A escolha de fornecedores para eventos empresariais raramente é um processo puramente racional, ainda que façamos por parecer que seja. Não me interpretem mal, os orçamentos, as propostas técnicas e as apresentações formais contam, mas a decisão final é fortemente influenciada por fatores não declarados, muitas vezes ignorados tanto pelos clientes como pelos próprios fornecedores.
Compreender como os decisores realmente pensam, o que valorizam em silêncio e o que os faz eliminar um fornecedor sem explicação é essencial para qualquer empresa que opere na área dos eventos empresariais.
Este artigo analisa o processo real de decisão, indo além do discurso formal, com base na experiência prática no terreno.
1. Quem decide… e quem influencia
Um erro frequente é assumir que quem pede o orçamento é quem decide. Na verdade, o processo envolve normalmente:
- Marketing ou Comunicação
- Compras / Procurement
- Direção Financeira
- Direção Geral
- IT ou Facilities (em eventos técnicos)
Cada interveniente avalia critérios diferentes, muitas vezes contraditórios.
Exemplo prático:
- Marketing quer impacto e fluidez
- Compras quer previsibilidade e comparabilidade
- Financeiro quer risco mínimo
- Direção quer que “não dê porcaria”
O fornecedor escolhido é aquele que não cria ansiedade a ninguém, mesmo que não seja o mais barato nem o mais criativo.
2. O critério silencioso nº 1: confiança operacional
Isto nunca aparece escrito, mas o fator mais importante é:
“Esta empresa consegue garantir que o evento acontece sem surpresas?”
Os decisores não querem:
- improvisos
- imprevistos
- explicações longas no dia do evento
- fornecedores a aprender no local
Valorizam:
- linguagem clara
- respostas diretas
- histórico visível
- sensação de controlo
A confiança operacional supera quase sempre o preço.
3. Porque é que o fornecedor mais barato perde (mesmo quando ganha)
Muitos fornecedores acreditam que perderam “porque eram mais caros”. Na verdade, muitas vezes, perderam porque:
- o orçamento não era claro
- havia demasiadas linhas ambíguas
- não explicaram consequências
- não anteciparam riscos
O cliente prefere pagar mais para não ter de pensar.
4. O peso da clareza na proposta
Uma proposta bem estruturada transmite competência antes mesmo de ser lida em detalhe.
O cliente interpreta como profissional quem:
- organiza por blocos lógicos
- explica o porquê das escolhas técnicas
- diferencia o essencial do opcional
- não sobrecarrega com jargão desnecessário
A proposta é, em si, um teste à capacidade de síntese lógica.
5. O que os clientes nunca dizem (mas pensam)
- “Não quero ser acordado às 7h da manhã com um problema”
- “Não quero ter de justificar falhas internamente”
- “Não quero ter de gerir fornecedores”
- “Quero que alguém pense por mim”
- “Não quero ter de pedir 30 orçamentos, perguntar detalhes a todos, analisar propostas e compilar todos os dados num Excel para mostrar à gerência antes de adjudicar”
Assim, os fornecedores que entendem isto posicionam-se como gestores de risco, não como simples prestadores de serviços. Estes fornecedores garantem que quem os contrata não corre o risco reputacional associado a um momento público que correu mal, ou a um atraso devido a uma falha técnica. Quem adjudica não está a alugar equipamentos ou a contratar pessoas, está a contratar a redução do risco associada a eventuais falhas técnicas e humanas.
6. A importância do histórico e da repetição
Clientes empresariais valorizam:
- continuidade
- consistência
- previsibilidade
Um fornecedor que já conhece os processos internos e preferências da empresa com quem trabalha reduz o esforço cognitivo do cliente. Isto representa um valor económico real.
7. Red flags silenciosas para os clientes
Mesmo sem feedback formal, os clientes eliminam fornecedores que:
- demoram a responder
- respondem parcialmente
- contradizem-se
- prometem demasiado
- desvalorizam problemas reais
8. Porque a empatia profissional decide contratos
Empatia não é informalidade.
É compreender:
- pressão interna
- medo de falhar
- limitação de tempo
- responsabilidade pessoal
Fornecedores que demonstram isto, sem dramatizar, ganham vantagem competitiva.
Conclusão
Eventos empresariais não são comprados — são confiados.
Quem compreende os critérios reais de decisão deixa de competir apenas pelo preço e passa a competir por segurança, clareza e fiabilidade.

